O Livro

Depoimentos

Li seu livro. É mais que iconoclasta... é apocalíptico... é mais que apocaliptico... é Shiva – mantenedor e destruidor.
Juarez Bonfim – escritor e doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca (Espanha).

Gostei desde as primeiras páginas, que li ainda na madrugada seguinte ao lançamento. Uma pegada forte, mas tive que interromper (...). Agora pude retomar desde o começo e fui direto até o fim. Que fôlego o seu, hein? Sustentar uma trama daquela sem perder o rebolado jamás... Eu, pelo menos, como leitora, não senti cansaço ou enfado em nenhum momento. Drama, comédia, romance, ficção, filosofia, crônica, poesia, o escambau, uma coisa revertendo na outra e o pulso da narrativa ali, firme, sempre. Imagino o que você sentiu quando deu o ponto final. Enfim, uma obra digna da sua assinatura como autor e muito, muito generosa com os leitores, com quem você compartilhou uma visão/viagem tão profunda e original. Bravo!
Suzana Alice – jornalista e mestre em Artes Plásticas.

O pique que você tem, escrevendo, é imenso e o que me agradou é que, depois de usar e abusar do leitor, fazendo com que a gente se sinta como bolhinhas agitadas na superfície de um chafariz, você simplesmente encerra o capítulo e ainda bem, pois então se consegue respirar e dizer: “uau, como o cara é bom!”
Cândido Soler – artista plástico.

Mucho, mucho bom !!! Um dia eu ainda vou escrever assim. E Adma tem que queimar nas profundezas do inferno, sem direito a bloqueador solar. E o Bagre Albino que se cuide. Grande abraço, amigo, e vá logo preparando outro!
Artur Carmel – jornalista.

No Bye Bye, embarcamos em naus/espaçonaves em viagens de corpo e mente, percorrendo diversos planos e dimensões em agudo olhar. (...) A refinada descrição da Chapada Diamantina me fez lembrar d’Os Sertões, de Euclides da Cunha, com a descrição da ambiência de Canudos. A de Euclides é técnica e a sua também é, mas com poesia! O dueto do sofrê com os acordes wagnerianos é obra-prima de rara beleza. Aliás, os titulos dos capítulos são ótimos: Sanfona quântica, Caranguejo no cosmo, O besouro de Satã e por aí vai!
Nelson Issa – cronista de costumes e administrador público.

Luciano, como nosso presidente perpétuo, diga a Luiz Afonso que gostei muito do Bye Bye Babilônia.
Mensagem do jornalista Ronaldo Jacobina ao barraqueiro e agitador cultural Luciano Serva, em fevereiro de 2011.

O texto de Luiz Afonso é rico sem ser afetado, econômico sem ser minimalista, elegante sem ser superficial e flui feito ribeirão que provoca redemoinhos na imaginação da gente.
Nildão, artista gráfico, designer e poeta

Luiz Afonso é o anti-Paulo Coelho. Não procurem na sua literatura remédios para as agruras da vida. Ao contrário: talvez nos assustemos ainda mais com o ato de viver, com o ato de sobreviver. Mas quem disse que a literatura teria o dom de curar? Rogério Menezes, escritor e jornalista

Bye bye Babilônia impressiona. Um turbilhão criativo que mistura ficção e realidade, o fim do mundo e doses de transcendência para quem quer se jogar. Tudo aqui perto, na Chapada Diamantina, coração da Bahia, lugar que já foi fundo do mar e onde o personagem Mario constroi um grande barco, porque mar de novo será. Antes de subir o morro onde será abduzido, você terá que passar pelo anão peruano, encarar as pedras que se movem e avançar por trilhas traiçoeiras até o desfecho surpreendente, dentro de uma espaçonave. Em permanente interação com o medo, loucura, rebeldia, esperança, estabilizadores para aguentar a vida e, no final, o grande voo para aqueles que tiverem tempo de gritar: bye bye Babilônia!
Sérgio Siqueira, produtor e criador midiático.


Trechos de capítulos

As ondas magnéticas do noticiário circundam o globo várias vezes enquanto o imensurável volume de água se desgarra da fonte do abalo e se espraia, em ondas velozes e com a estatura de prédios, para os litorais dos continentes, fenômeno descrito à exaustão nos canais favoritos. Zapeio o remoto, à procura de um programa diferente para sair dessa mesmice que começa a encher o saco. (O Sonho do Carregador de Pedras).

Grandes engenhos cósmicos, urdidos em intangível tecnologia, laborados com metais superleves, nanofibras e aparatos exóticos tricotados diretamente da fonte da matéria? Rio de mim mesmo ante a coleção de disparates que tenho colhido nos dias recentes. Mas... por que não? O que me separa da verdade – a mesma verdade questionada a Cristo por Pilatos? O que distingue o que é vero do que é falso, se não o embate cru entre a fé e a razão? O certo e o errado disparam seus sinais elétricos nos dois hemisférios da minha cabeça, mas não são afinal feitos da mesma matéria cinzenta, um e outro? Nas diferentes seções que compõem a caixa do cérebro, vibra um inteiro universo de pretensões e temores. (Sanfona Quântica).

Inspirada, ela mirou longamente os contornos da área e inquiriu se não seria boa ideia trazer umas orquídeas para adornar a pedra, calçar a base com seixos rolados e areia alva da beirada dos regatos, simbolizar com elementos físicos os caminhos ascendentes do espírito, modelar no cenário um jardim Zen e instalar ali, na parte mais elevada, uma representação do sereníssimo Gautama, substituindo o nicho negligenciado. Dispôs-se a contatar um conhecido dela que providenciaria, sem demora, uma estátua do Iluminado importada diretamente do Tibete. Assegurou conhecer as rotas e as pessoas, podendo assim facilitar as coisas. Respondi-lhe, sem pestanejar, que no meu escasso entender a pedra era em si a mais completa representação do Buda, se, claro, ao Iluminado aprouvesse mostrar-se em tal figuração. Em sua plenitude informe, concluí, a pedra traduzia a perfeição e as imperfeições do Avatar, os espíritos do calhau e do cristal unificados, uma só coisa e todas as outras inscritas em seu corpo indivisível... (No Quintal Zen-Chiita).

Em busca de apoio, risquei com as unhas a rocha porosa e vislumbrei uns pontinhos vermelhos, miúdos como os olhos de diabretes estrábicos. Mas não, os sujeitos aproveitavam o escuro para realçar as pontas rubras dos cigarros. O guia bateu palmas e pediu a todos atenção máxima, pois o grupo se dissolvia na escuridão do grande túmulo que nos abraçava sem pressa. (A Harpa Eólica).

O rojão do pânico manifestou-se, de início, como o vôo de um pequeno pássaro na borda de um precipicio. Logo cresceu sem controle e agora o próprio dragão de São Jorge desprendeu-se do disco lunar para degustar as minhas tripas, flapeia sobre minha cabeça suas asas negras. O rojão do pânico cresceu sem controle e as imagens que eu evitava piscam agora em um grande painel, como tubos de neon pregados no centro do cérebro, cada uma delas revelando uma particular modalidade de suplício: a vertigem é a ponta aguda de uma lança que acomete os rins, a arritmia se transfigura em choques aleatórios nos testículos, a claustrofobia abraça o meu corpo como os anéis de uma sucuri, o pavor queima os neurônios com a veemência de um lança-chamas. “Ora” – pensei – “para que tanto sofrimento?” (A Harpa Eólica).

De repente, um grito:
– O caldeirão! Olha o caldeirão aí, gente!!
É, o caldeirão havia entornado. E dele escapuliu uma multidão de diabretes e sábios, no princípio embaralhados em massa amorfa. Mas, à medida que se foram apurando as formas, passaram a distinguir-se nas cores (os diabos chegando ao vermelho básico e os sábios ao azul violáceo), nos gestos e nas façanhas – e forçaram a barra em direções antagônicas, bipolares, espalharam-se pelo recinto, cativaram seguidores para suas danças particulares, a divisão ficou quase metade-metade, era difícil saber quem era quem e de fato a ninguém ali interessava saber. A memória coletiva não vacilou e de nenhum outro lugar poderiam ter eles saído que não de um mesmo e comum caldeirão, aqueles diabos e sábios. Esta era a regra. (Passeio Lunar).

Despertavam-lhe especial interesse as expressões menos esmeradas que povoavam a base do morro, sugerindo gigantes disformes e gárgulas exaltados – e o doutor começou a reconhecê-los um a um, mapeou expressões e pressagiou intentos, atribuiu nomes aqui e acolá, regozijava-se ao reencontrá-los em cada expedição, dava-lhes tapinhas amigáveis nas costas ásperas, espantava-se com a sensação de que a cada visita os encontrava em formação mais avançada, quer dizer, pareciam em movimento, pétreo mas movimento. Mais: as feições e compleições pareciam definir-se, apurar-se em extravagante metamorfose, que se tornava mais rápida à medida que ele chegava mais alto. “Como pode?” – Perguntava-se. E contemplou com curiosidade e apreensão o cume do morro, um lajedo assentado sobre escarpas agudas, de difícil acesso, muito parecendo com a primeira letra do alfabeto em versão anterior à linguagem, como se marcasse a própria portaria do Hades, reduto das sombras dos humanos que atravessaram a fronteira entre a vida e a morte. (A Pedreira).

Assentado o despacho, uma cabeça negra de touro em larga gamela de barro, desarrolhada e deposta a garrafa de pinga e a farofa de azeite e acendidas as velas pretas e vermelhas, afastamo-nos em bloco, trêmulos, sem olhar para trás. O oficiante advertiu-me para nem pensar em voltar a cabeça para o que fora deixado nos trilhos, mas a teimosia venceu e o que estes cansados olhos contemplaram, pairando sobre os trilhos, não poderá ser descrito com letras ou qualquer outro meio conhecido... (Pé na Cova).

Assim rezava a cartilha do cangaceiro zen, que recorria, nos momentos em que a negação o puxava para baixo, à paralisia mental e ao efeito curativo dos pássaros: erguia a cabeça para vê-los, elevava o espírito ao ouvi-los. (Mordido de Cobra).

Percebi o veneno sutil inocular-se na mente, como uma ideia maligna. Espantado com tão perigosa companhia nos desvãos do pensamento, eu ignorava ter recebido armas indispensáveis à luta sem quartel prestes a irromper. Sem os códigos do mal alojados no córtex defensivo, seria presa fácil das falanges avançadas desse mesmo mal que me invadira as veias. Por longo tempo, permaneceu fora de cogitação quem ou o quê estaria por detrás de tal fenômeno. (Mordido de Cobra).

E fomos lá os três, em singulares e renovadas expedições nos dias que se seguiram. O tema era por demais excitante. Embrenhados nos sedimentos irregulares de arenito, eu parava num canto para tomar notas, o doutor desaparecia em meio à penhasqueira, Agulhão aproveitava a luz amarelo-pálida do início da manhã para tornar poéticos os seus flagrantes ou, conforme a ocasião e a veneta, a sombra dura do meio-dia para dar à rocha a clássica consistência rígida e imóvel. Escultor de formas tidas como imutáveis, dava-se ao deleite de modificá-las ao bel-prazer, variar a densidade e até movê-las – conquanto fossem pedras de grande tamanho e peso – com o uso de artifícios de luz e sombra. (Cheiro de Pimenta).

– Hijos de la puta!! Cabrones! Gusanos! Perros malditos!
Não entendemos o porquê dos xingamentos em castelhano, mas achamos convincentes os gestos e os dizeres do companheiro. O homem da câmera lá no alto não escondeu o riso, deu para ver o branco dos dentes. Riso interrompido pelo estrépito de uma pedra na carenagem e uma leve oscilação que se seguiu, o piloto se assustara por certo. Decorrido menos de um minuto eles fazem subir o engenho, fazem a volta e desaparecem por detrás das colinas, em direção a Carne Assada, primeiro o aparelho e depois o ruído. Atônitos e com os ouvidos zunindo, convencemos Agulhão a interromper sua performance patética, convertida em gritos de euforia ante a retirada da geringonça voadora.
– Cês viram, caras? Eu assustei eles! botei os sacanas pra correr!! (O Besouro de Satã).

As primeiras e robustas gotas estralejando no parabrisas e na lataria antecederam a tempestade que, logo, nos envolveu em uma cortina viva de névoa e água despencando em borbotões, tornando quase zero a visibilidade. Com os faróis acesos e em velocidade quase parando seguimos palmilhando a pista alagada, rente ao acostamento. À frente moviam-se em marcha lenta, qual ciclopes de dois olhos, os pontos vermelhos das luzes de ré de caminhões, quase colados um no outro, os motores gemendo em penosa escalada serra acima. Mais um pouco e divisamos, à esquerda, as luzes do posto Carne Assada, próximo às entradas para Iraquara e Palmeiras. (Uma Gota no Balde).

Um ser imemorial? O silêncio impessoal dizia que sim. As energias diziam mais ainda. Senti emanar daquela figura a força ambígua da cura e da doença, como se separadas pudessem estar uma da outra. Em ondas de persuasão muda, ele me envolveu e deu conta do estreitamento dramático das chances de ser revertida a loucura instalada no mundo, a doença coletiva cuja cura só poderia consumar-se com a cura individual. (O Homem de Palha).

Expressei para ele:
– Peraê, figura, segure sua onda! Já cansei de ver profetas mesquinhos e vilões generosos, quem vai separar a palha da massa, quem pode adivinhar o que pode sair de um sujeito com cara de anjo ou de um ente à primeira vista disforme? Deixe os inocentes plenamente à vontade e verá do que são capazes... A mácula não é apenas o fardo, mas sim, o fundo da humanidade, como negá-la ou ignorá-la? (O Homem de Palha).

Mal o dia clareou, escorreguei dos lençóis e fui conferir o quintal. O corpo respondia aos comandos como um mecanismo emperrado, as juntas ardiam como se oleadas com minúsculas e afiadas lâminas. O mundo parecia editado, uma cópia da realidade aprisionada em fotogramas velados. Espantou-me a densidade de chumbo das nuvens, que recobriam as direções todas, até onde os olhos alcançavam. Quase se podia tocar e modelar formas com elas. “Esculturas da impossibilidade e da desordem”, pensei. Os galhos mais elevados do grande eucalipto se desvaneciam na bruma, como os alvéolos de um pulmão virado pelo avesso. A respiração se fazia difícil, o ar estava parado mas dava para conduzir os sons chorosos das folhas, queixumes da vida em rota de diluição até o seu extremo oposto, o caos. Afigurava-se o epicentro de um extraordinário e invisível incêndio, que a tudo consumia lenta e quase imperceptivelmente. Meu próprio sangue parecia ferver em fogo lento, dentro das veias. (O Céu dos Desabrigados).

E em meio a essa corrente infernal nós avançávamos, dois trânsfugas com suas mochilas vistosas, vaquejando na alma síndromes de fatalidades e estouros de manada. Afastamo-nos do asfalto e pegamos a ladeira íngreme que contorna o maciço de pedra e dá acesso ao cimo do morro. Os rodopios de ar quente estralejavam. As nuvens apareciam agora em estrias, como se o arcanjo Gabriel em pessoa, com sua espada vingadora, as houvesse eviscerado e seccionado em tiras, uma por uma, deixando-as para secar ao sol da tarde, como mantas salgadas de bucho de vaca. Estava aberto o grande açougue da avenida principal. (Fogo na Babilônia).

Um arisco ponto de luz riscou o horizonte e estacou sobre o morro do Camelo. Como se atendendo a um chamado, outras luzes traçantes foram se acercando das tochas e fogueiras que marcavam posições nos platôs. Uma delas cresceu velozmente para o lado de cá do vale e posicionou-se sobre as nossas cabeças, iluminando a meseta com tons violáceos e nos imergindo em uma fita de ficção. (O Embarque)